Segunda-Feira, 22 de Outubro de 2018

Nacional
Domingo, 07 de Outubro de 2018, 07h:30

MINIREFORMA NÃO ADIANTOU

Por que candidatos se aliam a concorrentes de chapas adversárias?

Dock Júnior

Reprodução

Congresso Nacional

A minirreforma eleitoral de 2017 não atingiu, a princípio, os objetivos primordiais. É que ela ainda permite aquilo que popularmente se convencionou classificar como “samba do crioulo doido”, onde as ideologias partidárias são totalmente descartadas. O que se vê nas campanhas proporcionais e majoritárias é a prevalência da máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Essas condutas, nada republicanas, que deixam os eleitores perplexos e sem saber quem está com quem trazem uma espécie prostituição eleitoral. Longe de observar ou obedecer as decisões partidárias, na ampla maioria das vezes, por dinheiro ou interesses escusos, os candidatos a deputados estaduais e federais se aliam a postulantes ao Senado ou ao Palácio Araguaia que pertencem a chapas adversárias.

O MDB, por exemplo, é um dos mais perdidos nessa história. Escanteado após a cassação do ex-governador Marcelo Miranda, a sigla é tratada por todos como aquele tio rico, mas com uma doença incurável e contagiosa. Todos querem a herança (fundo partidário e tempo de TV), mas ninguém quer permanecer ao lado do de Miranda nas horas mais difíceis.

Os “modebas” de carteirinha não sabiam e ainda não sabem quem são os piores inimigos: o ex-prefeito Carlos Amastha que cansou de destilar o seu veneno contra Marcelo Miranda, o governador Carlesse, que assumiu criticando, e muito, a gestão estadual emedebista ou o PT, de quem foi parceiro há muitos anos, mas que teve a relação abalada em todos os Estados após a ascensão Michel Temer (MDB) à Presidência.

O certo é que o MDB se encaixou, aos trancos e barrancos, na chapa do outrora inimigo Carlos Amastha, mas a relação se assemelha ao roteiro daquele famoso filme “Dormindo com o Inimigo”, ou seja, eles apenas se toleram.

Os deputados estaduais araguainenses Jorge Frederico e Elenil da Penha, ambos do MDB, por exemplo, em recente reunião pública na cidade de Araguaína, declararam apoio a César Halum (PRB), candidato a senador na chapa de Mauro Carlesse (PHS). “Fizemos essa manifestação em apoio ao senador César Halum. Nos envolvemos com sua campanha e convido todos vocês a se envolverem também, pois estamos confiantes na vitória dele”, disse o primeiro parlamentar, enquanto o segundo, enfatizou que “esse é um projeto em prol de Araguaína, da região Norte e do Tocantins. “É preciso que nós tenhamos consciência de que precisamos eleger o nosso senador César Halum.”

No mesmo ato, o presidente da Câmara Municipal de Araguaína, vereador Gipão (PR), também destacou seu apoio: “Estamos caminhando e vamos eleger César Halum, porque precisamos de Araguaína e do Tocantins sempre fortes no Senado Federal para ajudar o Governador a ter governabilidade”. Ora, esses companheiros e correligionários não deveriam estar pedindo votos para os senadores Vicentinho Alves (PR) ou Ataídes Oliveira (PSDB), componentes da chapa encabeçada por Amastha?

A desculpa esfarrapada de todos eles é que neste pleito serão eleitos dois senadores e, por isso, é possível o apoio concomitante a outro candidato. A explicação faria sentido, se a chapa não possuísse outro candidato ao mesmo cargo, o que, verdadeiramente, não é o caso.

O caso relatado é apenas um exemplo. Há vários outros, como dos deputados estaduais Stalin Bucar (PR), Olyntho Neto (PSDB) e Luana Ribeiro (PSDB), que registraram suas candidaturas na chapa de Amastha, obedecendo às ordens do partido, mas que defendem a gestão humanista e pedem votos para Carlesse a ponto de Amastha ter insinuado que os R$ 500 mil apreendidos com o irmão Olyntho, em Araguaína, fizessem parte de um suposto caixa dois da campanha do governador.

Há outros balaios de gatos, como o fato da prefeita Cínthia Ribeiro (PSDB) declarar apoio ao candidato ao senado Eduardo Gomes (SD), preterindo o postulante da sua própria sigla, Ataídes Oliveira. Tal conduta foi severamente criticada pelo vereador oposicionista, Rogério Freitas (MDB): “Declarar apoio às vésperas da eleição é um tanto quanto oportunista e covarde. Covardia com o partido, o PSDB, e com o candidato que ela fingiu apoiar até aqui”.

Já o candidato a deputado federal Tiago Andrino (PSB), tido como o protegido de Amastha, não é visto pedindo votos para os senadores da sua chapa. Contudo, tem sido flagrado com militantes e correligionários que pedem votos para o candidato ao senado Irajá Abreu (PSD), do qual ele também é simpatizante, mas cujo registro de candidatura se deu na chapa de Marlon Reis (Rede).

E o que dizer, por fim, da vereadora da capital, Vanda Monteiro (PSL), candidata a deputada estadual que deseja que os louros e a fama do candidato a presidente de seu partido, Jair Bolsonaro, lhe rendam frutos, mas nem pensa em pedir votos para o candidato a governador César Simoni (PSL)? A parlamentar também é uma daquelas que pedem votos para Carlesse e para senadores componentes de outras chapas.

Enfim, o modelo político brasileiro está esfacelado, combalido e jogado à própria sorte. Não há respeito por ideologias ou formas de pensamento, apenas o poder interessa. É necessário que os novos componentes do Congresso Nacional, a partir de 2019, repensem as regras partidárias e eleitorais, inclusive o voto distrital. Caso contrário, todos os agentes políticos cairão, em breve espaço de tempo, na vala comum e em total descrédito.

Ou se proíbe as alianças espúrias, mesmo que veladas, ou se diminui o número de partidos políticos. Em último caso, para ser mais justo e menos indecente, que se permita que os candidatos não estejam filiados a partido algum para concorrerem a quaisquer cargos. Talvez a instituição e a legalização de um modelo anárquico seja mesmo a melhor solução.

Comentários

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

LEIA MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO