Terça-Feira, 25 de Fevereiro de 2020

Internacional

Domingo, 15 de Dezembro de 2019, 07h:35

PÁGINAS AMARELAS DA VEJA

Jane Fonda, sobre acusação de Bolsonaro a DiCaprio: ‘É patético’

Jennifer Ann Thomas

Caroline McCredie/Chopard/Getty Images

ane Fonda

Há uma régua para acompanhar as mudanças de comportamento da sociedade nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI: por meio das atividades (ou do ativismo) de Jane Fonda. Nos anos 1970, depois de ser fotografada sentada em um armamento antiaéreo vietnamita, em plena Guerra do Vietnã, ela foi apelidada de Hanói Jane e acusada de trair os Estados Unidos. Na década de 80, dedicou-se a algo um tanto mais mundano, o culto ao corpo, com uma série de vídeos de malhação que rodaram o mundo e alinhavaram um estilo de vida. Aos 81 anos, cansada de tanta beleza, a atriz inaugurou mais uma fase de sua vida: mudou-se para Washington. Ali, inspirada na menina sueca Greta Thunberg, de 16 anos, eleita a Pessoa do Ano pela revista Time, por liderar uma sucessão de greves escolares em defesa do clima — sempre às sextas-feiras —, Jane decidiu postar-se diante do Capitólio para gritar e agitar bandeiras. Faz o que sempre soube fazer: protestar. Ela já foi detida quatro vezes em 2019.

Entre o Vietnã e Washington, em cinquenta anos de trajetória, Jane ainda teve tempo de brilhar nas telas do cinema: ganhou duas vezes o Oscar de melhor atriz, por Klute — O Passado Condena, de 1971, e Amargo Regresso, de 1978. Entre uma manifestação e outra, a atriz falou a VEJA por telefone, dias depois de o presidente Jair Bolsonaro ter acusado o ator Leonardo DiCaprio de promover incêndios na Floresta Amazônica: “Leonardo DiCaprio é um cara legal, né? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia”, tuitou o presidente.

O que a senhora pensou quando soube da acusação de Jair Bolsonaro contra Leonardo DiCaprio? É patético. É risível. É uma piada.

A senhora acompanha as ações do presidente brasileiro? Sim, acompanho a política brasileira. Estava em Michigan durante as eleições presidenciais brasileiras, quando Bolsonaro foi eleito. Alguns brasileiros me viram e começaram a chorar ao dizer que ele havia ganhado a disputa presidencial. Eles sabiam o que significava para seu país aquela vitória e não conseguiram se conter. Eu me senti muito mal. Já passei um tempo no Brasil, amo o país, amo seu povo, e sinto muito que tenha chegado a esse ponto.

Qual é a sua opinião sobre Bolsonaro? É um homem que permite as queimadas na Floresta Amazônica em troca de dinheiro, em nome da produção agrícola, mas sem cuidado algum, suja. Ele não entende que está potencialmente destruindo um órgão vital do planeta, com a Amazônia em chamas — além do ridículo, reafirmo, de culpar Leonardo DiCaprio e os ambientalistas. Respeito a coragem e o sacrifício dos brigadistas que foram injustamente presos, recentemente. Calá-los é como tentar coibir a imprensa livre. Mas vocês vão superar isso. Assim como nós, americanos, conseguiremos superar esse período com Donald Trump.

“O presidente é um homem sem lei. Ele não respeita a instituição da democracia. Prefere homens durões, como Bolsonaro e Putin. É chocante ter Donald Trump na Casa Branca”

A senhora foi crítica contumaz de Richard Nixon (presidente dos Estados Unidos entre 1969 e 1974) e, agora, de Donald Trump. Qual é a sensação? Tenho vergonha. Tenho medo. Quero que as coisas mudem o mais rápido possível. Por mais que eu não gostasse de Richard Nixon, e ele certamente não gostava de mim, respeitava a regra da lei, da Constituição. O presidente, hoje, é um homem sem lei. Ele não respeita a instituição da democracia. Prefere homens durões, como Bolsonaro e Vladimir Putin, entre outros. É chocante ter Trump na Casa Branca.

O cotidiano político hoje estaria pior, portanto, que o dos anos 1970? Sim. É inimaginável, nunca pensei que viveríamos à sombra de uma figura como Trump. Nunca pensei que uma grande parte do Partido Republicano, a maioria dos representantes eleitos, decidiria defendê-lo e protegê-lo. É difícil acreditar que essas pessoas estejam pondo a fortuna pessoal à frente dos benefícios para o país.

A desobediência civil, que a senhora defende e promove nas manifestações que tem liderado em Washington, é mesmo o melhor caminho? Mudanças gigantescas aconteceram ao longo da história em virtude de ações de desobediência civil. Para dizer o mínimo, temos os exemplos de Mahatma Gandhi, na Índia, e de Martin Luther King, no sul dos Estados Unidos. Essa forma de agir tem de se tornar o novo normal. Na verdade, pessoas estão vindo de todos os cantos do país para se unir a nós na desobediência civil. Os senadores que apoiam a força-tarefa para lidar com as mudanças climáticas gostam do nosso movimento. Eles nos pedem ajuda. Eles dizem: precisamos de um batalhão, precisamos de pressão vinda da sociedade.

A senhora ganhou notoriedade ao defender os direitos civis, um dos grandes temas dos anos 1960 e 1970. A briga, agora, é para conter as ações do homem que provocam as mudanças climáticas. São brigas equivalentes? A crise climática afeta todas as outras questões. Não há nenhum aspecto do cotidiano que não esteja sendo afetado pelos danos ao meio ambiente. Por isso decidi deixar tudo de lado e dedicar todas as minhas forças a esse impactante dilema existencial. Não conseguiremos resolver nenhum dos outros problemas até começarmos a nos libertar dos combustíveis fósseis. Temos de fazer isso muito em breve. Não temos tempo a perder.

“A maioria das pessoas presas nos protestos pelo clima são mulheres mais velhas. As mulheres se tornam mais fortes quando amadurecem”

É possível comparar os protestos contra a Guerra do Vietnã com os atuais protestos pela atenção com as questões climáticas? Pôr o corpo na linha de frente, por qualquer causa que seja, é como agir durante uma guerra. Nesse sentido, sim, sinto que estou protestando como se fosse durante os anos do Vietnã.

Como a senhora se aproximou das ideias de Greta Thunberg — ou, dito de outro modo, das manifestações protagonizadas pela adolescente sueca? Há algum tempo, achei que não estava me esforçando o suficiente. Fiz muitas mudanças pessoais na minha vida: estou dirigindo um carro elétrico, eliminei os plásticos de uso único do meu dia a dia, estou consumindo menos carne e peixe. Fiz mudanças individuais, mas intuí que era pouco. Então, decidi agir, a exemplo de Greta Thunberg, a respeito de quem li diversas reportagens e cuja postura me ensinou muita coisa.

O que, por exemplo? A história dela é inspiradora. Sei que Greta está no espectro do autismo e sei o que isso significa sobre sua habilidade de focar um assunto como se fosse um raio laser, de maneira mais precisa do que quem não está no espectro. Ela consegue ver tudo de uma forma muito clara. Aos 11 anos, Greta leu sobre o que estava acontecendo com as espécies de animais e ficou traumatizada. Parou de comer e de conversar. Isso tudo impactou o crescimento de Greta. Quando li isso, sabia que ela havia visto a verdade. Greta convocou as pessoas a deixarem sua zona de conforto, o chamado business as usual. Qualquer pessoa que visse sua casa pegando fogo não agiria normalmente, reagiria como se estivesse em uma crise. Bem, estamos em uma crise evidente e grave, então temos de agir de acordo com o momento. A decisão de morar em Washington é resultado dessa constatação.

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/jane-fonda-sobre-acusacao-de-bolsonaro-a-dicaprio-e-patetico/

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