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Quarta-Feira, 10 de Janeiro de 2018, 12h:24

LIXO

China não vai mais reciclar plástico de outros países

XAVIER FONTDEGLÒRIA Twitter

FRED DUFOUR AFP/GETTY IMAGES

Trabalhador classifica garrafas de plástico para reciclar em Pequim.

China quer deixar de ser o depósito de lixo do planeta. O país proibiu as importações de certos tipos de resíduos sólidos do exterior, uma medida que pode ter impactos importantes sobre a indústria mundial da reciclagem. Todas as nações – principalmente as desenvolvidas – que até agora dependiam do gigante asiático para se desfazer de seu lixo deverão agora procurar alternativas, seja administrar esses resíduos por si mesmas ou buscar outro destino para eles.

A nova lei, que entrou em vigor no início do ano, proíbe a compra de 24 tipos de resíduos que podem ser agrupados em quatro categorias: plásticos, papel não triado, escória de certos minérios e refugos têxteis. O Ministério do Meio Ambiente afirma que a medida responde aos planos nacionais de combater a degradação ambiental com o fechamento de numerosas usinas de reciclagem especialmente poluentes. As grandes zonas de processamento destes resíduos se encontram nas províncias de Cantão, Zhejiang e Shandong, regiões costeiras com importantes portos de entrada de mercadorias.

A China começou a importar resíduos sólidos durante a década de 1980 para reutilizá-los e, assim, aliviar a escassez de certas matérias primas. Com o passar dos anos se tornou o principal destino de lixo de outras partes do mundo. A proibição que acaba de entrar em vigor não é total – continuarão sendo comprados resíduos que estejam corretamente triados –, mas o impacto é significativo.

Das categorias agora vetadas, especialmente relevante é o caso dos resíduos, aparas e sucata de plástico. Em 2016, segundo dados da base de dados Comtrade da ONU, a China importou 7,35 milhões de toneladas de plástico, 55,3% do total mundial. Se forem contados os resíduos desse material que entraram através de Hong Kong (que os re-exporta quase integralmente para a China continental), o número chega a 10,2 milhões de toneladas, quase 70% do total. Montanhas de plástico que não poderão mais entrar na China, pelo menos de forma legal.

A dependência de certos países do mercado chinês nesse campo é considerável. A Espanha, por exemplo, enviou 318.926 toneladas de plásticos para o país (incluindo Hong Kong) em 2016, 65% do total exportado. O México vendeu 429.539 toneladas, mas o peso relativo das compras do gigante asiático é algo menor (47,4%). No caso do Japão e da Coreia do Sul, a proporção supera os 80%. “Essa regulamentação vai causar um terremoto em todo mundo, e forçará vários países a abordar a atitude de ‘o que os olhos não veem o coração não sente’ que se desenvolveu para o lixo”, diz Liu Hua, pesquisador do Greenpeace na Ásia Oriental. Já no Brasil, a falta de coleta seletiva para reciclagem faz do país um importador de resíduos sólidos.

Para o especialista, “o mundo não pode continuar com o atual modelo de consumo desenfreado baseado no crescimento infinito em um planeta finito”, por isso pede que os países mais afetados pela proibição na China pensem em formas de reduzir os resíduos em vez de novos lugares para onde enviá-los. De fato, aponta o Greenpeace, nações que nos últimos anos aumentaram as compras de resíduos como Malásia ou Vietnã “não têm a mesma capacidade da China” para lidar com esse volume de lixo.

A agência oficial chinesa Xinhua aproveitou a proibição para criticar as economias industrializadas que “por décadas exportaram poluição e fugiram de sua responsabilidade beneficiando-se das práticas de importação antes permissivas” em seu país e outras nações. “O mundo desenvolvido deveria ser grato à China que, em detrimento de seu próprio meio ambiente e da saúde de seus habitantes, ficou com seu lixo durante anos”, diz o texto.

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