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Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017, 13h:10

ESTUDO

As lesões cerebrais dos piores criminosos

MIGUEL ÁNGEL CRIADO

GETTY IMAGES

O primeiro assassino em série, Charles Whitman, e sua primeira vítima, a esposa.

Andréa (nome fictício) passou por uma cirurgia para retirar pólipos nasais em 1985. Alguma coisa deu errado na operação e ela perdeu líquido cefalorraquidiano. Desde então, nunca foi a mesma: evitava reuniões familiares, escrevia cartas com palavras vulgares ao melhor amigo de seu pai e de boa aluna que era se tornou incapaz de se manter em um emprego. Com o tempo começou a ter alucinações e ouvir vozes. Em 2007, atendeu ao que ouvia e matou sua mãe. Este raríssimo caso de matricídio faz parte de um estudo que procura as raízes dos piores crimes no cérebro dos criminosos, em particular, em cérebros danificados.

“O quadro foi se agravando lentamente, uma amiga íntima nos contou sobre as mudanças progressivas em sua personalidade depois da operação até que apareceram os sintomas psicóticos que foram mal interpretados como esquizofrenia e depois os do tipo homicida”, comenta a professora de psiquiatria da Universidade de Santiago Chile, Gricel Orellana, que publicou uma pesquisa sobre o caso de Andrea em 2013. “Além disso, sua amiga relatava que era uma pessoa normal e ética antes da operação”, acrescenta Orellana, que também é perita judicial em casos de patologias neuropsiquiátricas.

Agora, um grupo de pesquisadores dos EUA compilou várias dezenas de casos como o de Andréa. São histórias muito extremas, mas também muito férteis para a ciência: são pessoas que eram ou levavam uma vida normal e que começaram a cometer crimes depois de uma lesão cerebral. Apesar de haver muitos estudos que relacionam conduta criminosa a problemas mentais, poucas vezes, como nesta, é possível estabelecer uma conexão temporal entre dano no cérebro (primeiro) e crime (depois).

Tumores e cirurgias, principais causas das lesões cerebrais reunidas no estudo

O caso mais famoso talvez seja o de Charles J. Whitman. Esse ex-marinedos Estados Unidos começou sua história de assassinatos em massa naquele país em 1 de agosto de 1966. Depois de matar sua mãe e sua mulher, subiu à torre do relógio da Universidade do Texas, em Austin, para disparar contra tudo que se movesse, assassinando mais 13 pessoas, uma delas grávida, e ferindo outras trinta antes de ser abatido. Um mês depois, o patologista que realizou a autópsia no franco-atirador revelou que tinha um tumor cerebral. Isso e as cartas que deixou escritas sobre seus estranhos pensamentos demonstraram que a lesão cerebral provocou ou pelo menos influiu em sua conduta.

estudo publicado agora na revista PNAS se baseia nos históricos clínicos dos criminosos e os exames de imagem de seus cérebros já lesionados quando estavam na prisão ou, como no caso de Andrea, internados em centros psiquiátricos. Nenhum deles tinha cometido um crime, muito menos grave, antes da lesão. Apesar de só se saber a origem das lesões na metade dos 40 casos estudados, a maioria foi provocada por tumores ou cirurgias.

O primeiro resultado da pesquisa pode surpreender: em nenhum dos casos a lesão exata coincide. “Acho que é difícil de entender inclusive para neurologistas e neurocientistas”, diz o professor de neurologia da Universidade Vanderbilt(EUA) e principal autor do estudo Ryan Darby. “Nossa hipótese é a de que as lesões ocorreram em partes diferentes da mesma rede cerebral conectada”, explica.

O exame de imagem do cérebro mostrou que todas as lesões ocorreram em regiões diferentes do cérebro. Aqui, imagens de 17 dos criminosos.
O exame de imagem do cérebro mostrou que todas as lesões ocorreram em regiões diferentes do cérebro. Aqui, imagens de 17 dos criminosos. PNAS
 

Apesar de a localização das lesões não se repetir nenhuma vez, em todos os casos detectou-se que as regiões lesionadas pertenciam à mesma rede de conexões neuronais, a da tomada de decisões morais. “Para a conduta moral, mais relevante do que uma região concreta é a interação dentro de uma rede de diferentes regiões cerebrais, o que explica a mudança de conduta”, comenta Darby.

O professor de neurologia da Universidade da Califórnia Los Angeles, Mario Méndez, que não tem relação com essa pesquisa, há anos investiga a conexão entre problemas mentais e criminalidade. Apesar de reconhecer a contribuição do estudo, questiona suas conclusões. “A tomada de decisões morais inclui muitas coisas e também pode ser afetada por mudanças em diferentes áreas do cérebro. Isso envolve muitos processos, como reconhecer que algo está bom ou ruim, temer a implicação da punição, lembrar as regras sociais de comportamento, reconhecer que outras pessoas têm pensamentos e sentimentos, controle emocional, entre outros”, diz.

O problema para o também diretor de neurologia do comportamento do departamento voltado a veteranos de guerra da região metropolitana de Los Angeles é que esse estudo “não nos indica como a rede de lesões anormais realmente afeta a moralidade” e como essa moralidade está conectada com a conduta criminosa. Para Méndez, “os neurocientistas com frequência acreditam que o cérebro determina todo o comportamento”. No entanto, acrescenta, “sempre que os indivíduos entendem que têm opções em seu comportamento e se mantêm o controle sobre suas reações, ter uma lesão cerebral não desculpa a criminalidade”.

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