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Segunda-Feira, 13 de Março de 2017, 10h:20

ARTIGO

Solidariedade para estranhos?

Wellington Anselmo Martins*

Nos EUA, Trump calcula US$ 15 bi, para fazer um muro. Na Europa, o Brexit é a ação nacionalista para acrescentar mais ouro ao ouro que já há na Coroa britânica. E na "comunista" China, o capitalismo é do Estado, buscando mais e mais riqueza para o governo: porém os trabalhadores continuam escravizados. Ou seja, diante deste cenário protecionista, onde cada país acredita ser o centro mundial e só olha para si mesmo, a realidade internacional é que "hoje o mundo vive a maior crise humanitária da história", segundo a ONU; são mais de vinte milhões de miseráveis atualmente. A solução? Para a ONU, é necessário o investimento de US$ 4,4 bi. Sim, isso mesmo. Apenas um terço do que Trump gostaria de usar na sua muralha nazista. (E para comparar mais: sabe qual é o PIB do nosso "pobre" Brasil? Mais de R$ 2 trilhões...). — O problema da miséria, enfim, é que os olhos de cada um estão voltados apenas para si mesmo, pois no fundo: "não existe essa coisa de sociedade, o que existe são apenas indivíduos!" (Margaret Thatcher).

Quem realmente se importa com a fome das mulheres negras da Somália? Com as doenças que acometem os sudaneses pobres? Acha mesmo que isso tira o sono do nosso Michel Temer? Que magnatas bairristas como Donald Trump pensam em resolver problemas humanos ou globais? É claro que não. Mauricio Macri quer apenas melhorar o PIB da sua Argentina. A Coreia do Sul, hoje, simplesmente tenta se livrar do problema do seu próprio impeachment... Cada país, isto é, do Ocidente ao Oriente, está muito focado em suas próprias demandas: ainda que já sejam países riquíssimos, lutam então para manter a sua eminência.

Do outro lado do muro, bem distantes, os países pobres ou as populações pobres dentro dos países emergentes e ricos são tratados como normalmente se tratam os mendigos na rua, apenas se vira o rosto enquanto se joga uma moeda. Ninguém quer se envolver realmente. Solidariedade para estranhos? Ora, deixemos isso para os franciscanos, para quem acredita em Céu e quer ir para lá; deixemos isso para os bilionários filantropos, que sem levantar da poltrona ganham o Nobel da Paz por doar aquilo que lhes sobra enquanto tocam todas as trombetas do marketing pessoal.

Ou seja, a resposta institucional do mundo diante da crise dos refugiados, dos imigrantes, dos miseráveis, dos não-consumidores, é uma resposta historicamente repetida: estão elegendo a extrema-direita, individualista e xenófoba, mundo afora. Um homem carismático, europeu e branco como Adolf Hitler seria tido como um mito hoje, seria adorado pelas massas acríticas... outra vez. O populismo sempre funciona, pois ninguém quer enfrentar a complexidade dos problemas humanos e mundiais. Aprendemos, desde a escola básica, a aceitar respostas prontas. Aprendemos, desde a catequese na infância, a reafirmar sem crítica os nossos preconceitos e os nossos dogmas.

Enfim, a contemporaneidade é, de fato, o desdobramento de sua história pregressa. Mas é também o constructo dos nossos próprios princípios; desta nossa geração treinada, pela mídia e pelo consumismo, para olhar apenas para si. Nós estranhamos os pobres e os miseráveis, do nosso país ou os lá da África, mas de modo algum devemos estranhar as loucuras autoritárias de Donald Trump, a mesquinhez do Reino Unido, a gritante desigualdade chinesa... O egoísmo dessas lideranças políticas é a exata representação do “Zeitgeist”, de boa parte do espírito de nossa época, de boa parte daquilo que nós mesmos ainda somos de cruéis.

*Wellington Anselmo Martins é graduado em Filosofia (USC), mestrando em Comunicação (Unesp de Bauru), bolsista de pesquisa (Capes).

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