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Sexta-Feira, 11 de Outubro de 2019, 14h:22

WHATSAPP

Revista Crusoé mostra como funciona a milícia virtual bolsonarista

Reprodução

Militância bolsonarista na internet

Mensagens e áudios de WhatsApp divulgados pela revista Crusoé nesta sexta-feira (11) revelam como funciona a militância bolsonarista na internet. Empresários, blogueiros e funcionários públicos atuam em conjunto e de maneira organizada para derrubar funcionários, destruir reputações e promover linchamentos virtuais, mostra o jornalista Felipe Moura Brasil. A reportagem indica o envolvimento do assessor especial da presidência para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, com o grupo. Também aponta fogo amigo contra os ministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública).

Em um dos episódios narrados, a revista revela o bastidor de uma reunião de militantes pró-Bolsonaro em São Paulo, em 6 de abril. O investidor por trás do site bolsonarista Crítica Nacional, Otávio Oscar Fakhoury, participou desse encontro. Ele ressaltou o caráter secreto da reunião a uma pessoa próxima. “Sábado é para planejamento de guerra. Não é para ser divulgado”, afirma.

O assessor especial da presidência para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, também foi ao evento. Assim como Fakhoury, ele também prezava pela discrição do evento. “Vou sim, mas vou em segredo. Ninguém pode saber”, confidenciou a uma pessoa próxima, à qual afirmou também que a reunião tinha a intenção de promover um maior entrosamento entre os movimentos.

Após a reunião, Filipe divulgou uma imagem do encontro com um tom menos belicoso do pregado por Fakhoury. Na legenda da publicação, o assessor afirmou que se encontrou com “principais líderes de movimentos conservadores” que deram um “feedback” sobre os primeiros cem dias de governo.

A reportagem conta que Fakhoury e Martins se conhecem desde 2017 e têm atuado juntos em alguns episódios políticos importantes no governo Bolsonaro. Um deles foi o dos ataques ao ex-ministro da Secretaria de Governo o general Santos Cruz, que levou à saída do militar do cargo.

Em uma conversa privada, Martins criticou a entrevista que o militar deu ao jornal O Estado de S.Paulo, na qual afirmou que o gasto com publicidade do governo não é passível de pressões. Santos Cruz defendia moderação no uso de redes sociais para que a ferramenta não “vire uma arma na mão de radicais”.

O assessor da presidência criticou a postura do militar, depositando nele a culpa pela comunicação do governo não “deslanchar”. Fakhoury também condenou as posições do militar, mas em seu site, Crítica Nacional. “Santos Cruz hoje levou uma paulada nossa lah do CN [Crítica Nacional]”, disse no grupo.

A reportagem conta que os militantes bolsonaristas utilizavam o WhatsApp para planejar ataques coordenados a pessoas consideradas obstáculos e para apoiar os aliados. Uma das pessoas que se beneficiaram com esse sistema, conforme a reportagem, foi a ex-secretária do PSL paulista, próxima a Eduardo Bolsonaro, Letícia Catelani, demitida após uma crise na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex).

Em mensagens a bolsonaristas, Fakhoury pedia para que eles apoiassem Letícia. “Aliás, falando em Letícia, precisamos ajudar ela que esta sendo bem atacada lah na Apex”, disse. Em outro dia, o investidor pediu divulgação de um texto da Crítica Nacional que defendia a ex-secretária do PSL. “dê RT [retuíte] no texto do Paulo Enéas que fala da grande competência da Letícia”, pediu.

Apesar do movimento nos bastidores, o apoio da rede não foi suficiente para manter Letícia Catelani no cargo, e ela foi exonerada pelo almirante Sérgio Segovia, aliado de Santos Cruz.

O embate na Apex provocou ainda mais animosidade contra o militar, que ocupava a Secretaria de Governo. Em um áudio enviado no dia que Letícia foi exonerada, Fakhoury elenca iniciativas contra o general. Um dos parceiros do ataque planejado pelo investidor do CN, segundo a reportagem, é o blogueiro Allan dos Santos, dono do site bolsonarista Terça Livre.

“Tem também uma outra [postagem] que nós estamos preparando no Crítica [Nacional], com informações de lá, de uma denúncia de tráfico de influência do Santos Cruz, em cima do Ernesto Araújo, que o Ernesto bloqueou. Mas é uma denúncia que nós estamos colhendo para poder publicar entre hoje e amanhã. Então essa você vai ter que esperar um pouquinho. Vai ter o link e vai ser pelo Crítica, essa. Mas essas duas que eu te passei já são boas. Mais o post do Allan [dos Santos], que tem as fontes lá dentro também, que são confiáveis, lembra? Ele desmentiu a [jornalista Eliane] Catanhêde, desmentiu a demissão do [então ministro da Educação, Ricardo] Vélez [que um tempo depois acabaria mesmo demitido], lembra? Ele tá bem lá de fonte,” conta.

‘Milícia jacobina’

Além das conversas privadas, a rede de apoio do presidente conta com um grupo no WhatsApp para tratar dos assuntos caros ao bolsonarismo. Administrado por Fakhoury, o ‘Milícia jacobina vs OESP’ reúne nomes relevantes na militância de direita, como Filipe Martins, o youtuber paraense Bernardo Pires Küster e o editor da Crítica Nacional, Paulo Enéas.

O nome do grupo veio de uma reportagem do Estado de S. Paulo sobre a militância pró-Bolsonaro, que tinha como título ‘Rede bolsonarista jacobina promove linchamento virtual até de aliados’. OESP é uma sigla para o nome do jornal.

De acordo com a Crusoé, o grupo na rede social facilitou as ações coordenadas da militância. Mais uma vez, o alvo do fogo amigo foi o ex-ministro Santos Cruz. “Ajudem a divulgar os e-mails que o CN [Crítica Nacional] publicou, mostrando a ingerência indevida desse troglodita SC [Santos Cruz’”, escreveu Fakhoury no grupo.

Os ministros Paulo Guedes e Sergio Moro também não foram poupados por integrantes do grupo. “A direita tem que se unir agora. Senão os liberais (Guedes) e tecnocratas (Moro) além de alguns militares que são positivistas demais e nada anti globalistas vão deixar de lado a pauta conservadora”, diz mensagem atribuída a Fakhoury. “Eu canso de dizer: quem ganhou a eleição não foi a pessoa do JB, nem Mourão, nem os militares. Quem ganhou a eleição foi uma onda, um movimento (como diz o Steve Bannon), um levante conservador!”, continua.

 

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