Sábado, 14 de Dezembro de 2019

Brasil

Domingo, 19 de Maio de 2019, 07h:28

IMPRENSA

Livro revela como o BNDES financiou a JBS, que se tornou Robin Hood de políticos

Euler de França Belém

Reprodução

Governantes cortam em áreas essenciais aos cidadãos — como o financiamento da educação — para bancaram negócios de empresários politicamente articulados, como Joesley Batista

A JBS é uma prova de que o capitalismo no Brasil se expande à sombra frondosa do Estado. Não foi o mercado que vitaminou a empresa que, tendo surgido como um açougue em Anápolis, cidade de Goiás, se tornou uma potência transnacional.

José Mineiro, o patriarca, e os irmãos Joesley Batista, Wesley Batista e Júnior Friboi — que não participa mais da direção do grupo — têm méritos. Porque começaram a vida empresarial sem o amparo estatal. Mas, ao crescerem, tomaram o governo federal, no caso o paizão Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como padrinho e “sócio”. Os governos do PT, com sua política de bancar os campeões nacionais, contribuíram para transformar uma empresa patropi numa multinacional. Não é pouca coisa, afinal é mais fácil ir a Marte do que ser empresário no Brasil.

A JBS teria crescido tanto, conquistando até o altamente competitivo mercado dos Estados Unidos, sem o apoio do Estado brasileiro? Talvez não. Frise-se, porém, que a empresa começou sua expansão antes de se tornar apadrinhada dos governos petistas.

A partir de que se tornou uma campeã nacional, consolidando uma parceria produtiva com o BNDES, a JBS, sobretudo Joesley Batista, começou a financiar políticos que eram “leais” tanto à empresa quanto ao PT dos ex-presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não só, é claro. Porque políticos do PSDB, como o senador Aécio Neves, também receberam dinheiro da JBS. Do ponto de vista da distribuição de bufunfa, a empresa era ecumênica.

Wesley Batista e Joesley Batista, da JBS-Friboi: de açougueiros a empresários potentados até nos Estados Unidos | Foto: Reprodução

A JBS ganhou muito dinheiro e também distribuiu milhões de reais, como se fosse como se fosse uma espécie de Robin Hood monetizado dos políticos, independentemente de suas ideologias. Money, por sinal, é a-ideológico. A empresa, por assim dizer, “democratizou” a corrupção: sobrava dinheiro para (quase) todo mundo. Leis eram feitas por congressistas, regiamente pagos, para beneficiar tanto a empresa quanto outros empreendedores (do ramo automotivo, por exemplo).

A história da empresa privada — que, alavancada pelo Estado, cresceu e se tornou uma gigante — não havia sido contada de maneira ampla. Agora, a jornalista Raquel Landim, da “Folha de S. Paulo”, lança o livro “Why Not” (Intrínseca, 432 páginas), com um subtítulo gigante: “Como os irmãos Joesley e Wesley, da JBS, transformaram um açougue em Goiás na maior empresa de carnes do mundo, corromperam centenas de políticos e quase saíram impunes”. Se não ficasse acadêmico, o subtítulo poderia ser outro: “Entenda como a JBS privatizou o setor público no Brasil”. No país, quando se trata das altas finanças, iniciativa privada e Estado são, por vezes, uma coisa só, não importando qual é o poderoso do momento.

Raquel Landim, jornalista, faz uma radiografia do capitalismo patropi ao examinar o caso da multinacional JBS | Foto: Divulgação

No Brasil não basta ser rico — é preciso ostentar e, por intermédio de bens, gritar: “Sou milionário!” No caso, “sou bilionário!” Joesley Batista, dono do iate Blessed (“Abençoado”), decidiu trocá-lo pelo Why Not (“Por que não?”), que, além de novo, é maior e mais chique. O principal herói-vilão do livro é Joesley Batista, pois o irmão, ainda que também processado, é avesso à convivência com políticos. A família é dona de mansões, apartamentos suntuosos, ilha e jatinhos. O céu, para os Batista, é (ou era) o limite. O Brasil não cresce, arrastando-se ao longo do tempo, mas a JBS está em franca expansão no país e no exterior.

Raquel Landim pesquisou durante dois anos, revisou documentos antigos e compulsou novos textos, fez uma série de entrevistas, e entrega ao leitor um livro que mostra que o capitalismo tropiniquim, ao menos em parte, é parecido com o chinês. Aqui, como lá, o poder público é onipresente, às vezes como paizão, e quase sempre como avô (dando até o que os netos não pedem). O mercado serve-se à vontade das facilidades do Estado. Mas, quando concedem entrevistas, empresários, inclusive os beneficiários das mamatas públicas, arrotam discurso a respeito do primado da livre iniciativa e se postam como críticos viscerais do arcaísmo, da ineficiência e do burocratismo do Estado.

É provável que o livro ajude os Batista (homens inteligentes, bem-sucedidos, mas de poucas luzes intelectuais) a entenderem o que fizeram com seus negócios e, corolariamente, ao Brasil. Os leitores certamente vão entender que não raro governantes cortam em áreas essenciais aos cidadãos — como o financiamento da educação — para bancaram negócios de empresários politicamente articulados. Não se está falando, claro, do governo do presidente Jair Bolsonaro, pois não há notícia de que tenha cometido, no poder, alguma ilegalidade para beneficiar a iniciativa privada.

O livro de Raquel Landim, ao contar a ascensão vertiginosa (e quase queda) da JBS, é uma espécie de micro biografia do capitalismo brasileiro.

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