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Sábado, 28 de Julho de 2018, 09h:04

O real e o abstrato

Míriam Leitão, n’o Globo

Reprodução

Míriam Leitão

O mercado tende a olhar o último evento para explicar movimentos que foram formados por questões bem mais estruturais. Isso vale para qualquer tipo de mudança brusca de valor. A queda das ações do Facebook foi explicada como decepção com o desempenho do segundo trimestre, mas o que acontece com a rede é bem mais amplo. Ela enfrenta uma crise de reputação e de incerteza sobre o futuro.

Há dúvidas mais agudas pairando sobre a empresa de Mark Zuckerberg. Seu valor caiu uma Petrobras e um Bradesco, mas ela permanece sendo uma gigante de meio trilhão de dólares. A perda fez com que seu criador apenas descesse dois degraus na lista dos mais ricos do mundo, com seus US$ 70 bilhões.

O mundo aprendeu na crise das pontocom, no fim dos anos 1990, portanto há duas décadas, que sim, tudo que parece sólido desmancha no ar. Durante o período de alta das empresas de internet, as bolsas americanas chegaram a níveis nunca vistos antes, e a impressão era de que o valor das companhias de alta tecnologia, comércio eletrônico e todas as novidades do então admirável mundo novo, teria crescimento infinito. Até o dia em que a bolha estourou como tulipas.

As empresas do mundo da tecnologia voltaram mais fortes e mais concretas, mas têm na sua natureza a volatilidade e o efêmero. O Facebook nasceu de saltos tecnológicos, mas não é o fim da história. Outras redes surgiram e surgem a cada momento. Fenômenos como ele podem se repetir e ser superados. Essa riqueza abstrata é parte da nova economia, completamente diferente da lógica de outrora onde só havia o mundo físico. A Amazon, outra gigante, tem ponte bem mais direta com o real das coisas. O curioso caminho do seu fundador, Jeff Bezos, o levou do comércio eletrônico de livros à mais clássica das mídias, o jornal impresso.

O Facebook nos últimos tempos enfrentou a acusação — e investigações — de ter sido a plataforma para manipulação de eleições nos Estados Unidos e do plebiscito no Reino Unido. Este ano, ele se prepara para dar garantia aos eleitores de vários países, como o Brasil, de que aumentaram as defesas contra seu uso indevido nas escolhas políticas. Mas os critérios não estão claros. As mudanças de algorítimo não agradaram. Eles parecem estar sempre correndo para corrigir o erro já ocorrido e não o que pode vir a acontecer. Até que ponto os novos filtros limitarão a liberdade dos usuários e quanto essa tem sido uma liberdade vigiada desde sempre? Questões reputacionais são mais importantes do que um pequeno declive no número de usuários na Europa ou um crescimento menor da base de usuários. Na quarta-feira, a empresa anunciou que a base de usuários ativos por dia ficou em 1,47 bilhão em junho, e os analistas calculavam que seria 1,48 bilhão. Essas minúcias não explicam o tombo histórico. Com o Facebook, como ocorre também com empresas da economia real, o panorama mais amplo é mais relevante para explicar a criação ou a destruição de valores.

O escândalo ainda não dissolvido do uso irregular dos dados dos usuários pela Cambridge Analytica é o que está por trás do movimento das ações. Ele colocou vários dilemas para a empresa, seus usuários e seus anunciantes. Os novos filtros e regras de privacidade darão o conforto que os usuários querem ou apenas reduzirão o apelo da rede? E se agradarem seus adeptos, diminuirão o interesse dos anunciantes? O uso da rede na disseminação de notícias falsas ameaça o que há de mais caro no processo civilizatório, as escolhas democráticas.

Por trás do tranco que as ações levaram permanece também uma velha questão de todas as fases da economia e dos negócios com papéis de qualquer empresa. Nada se valoriza para sempre. Até quando ela poderá continuar agregando valor?

O Facebook amanheceu um pouco menor, mas as notícias ontem cedo já eram outras. A economia americana cresceu 4,1% no segundo trimestre e isso é mais do que o projetado. Cresce, mas o déficit americano chega a US$ 1 trilhão — pelo corte de impostos das empresas decidido pelo presidente Donald Trump — e as sombras de uma guerra comercial com seu maior parceiro permanecem no horizonte. O equilíbrio de empresas e países é precário nesse mundo em que o abstrato e o concreto se misturaram tão completamente.

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