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Quarta-Feira, 11 de Março de 2020, 16h:58

O lugar mais perigoso do mundo para uma mulher: dentro da sua própria casa

Raquel Kobashi Gallinati

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Raquel Kobashi Gallinati

Cada vez mais, as mulheres ocupam lugares de destaque em suas profissões, possuem autonomia financeira, são referências em seu campo de atuação e conquistam seu espaço na sociedade. As vitórias na luta por igualdade, entretanto, escondem uma realidade perturbadora: a cada dois minutos, ocorre um caso de violência doméstica no Brasil. Livres nas ruas, muitas mulheres ainda são prisioneiras de uma rotina de agressões e medo dentro de suas próprias casas.

Os dados foram divulgados no final do ano passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e fornecem um amplo panorama do que acontece no país. A rotina doméstica violenta ocorre gradativamente, com gritos, xingamentos e agressão física. Quando chegam a público, muitos casos já entraram nas estatísticas de feminicídio.

As agressões se arrastam durante anos, motivadas por ciúme, sentimento de posse e violência, muitas vezes ampliadas por fatores como abuso de álcool e drogas ilícitas. Quando a mulher decide romper com esse ciclo e denuncia o agressor ou põe um fim ao relacionamento, o caso chega ao conhecimento da polícia.

Quando a violência é conhecida, as autoridades agem rápido, com prisão dos acusados e medidas protetivas de urgência para as vítimas. Nada disso, porém, é suficiente para garantir a segurança das mulheres.
São muitos os casos feminicídio em que o companheiro comete o assassinato após ter a fiança da sua prisão paga e desrespeitando ordens judiciais, como por exemplo, não ter contato e não frequentar os mesmos locais que a vítima.

No Dia Internacional da Mulher, é preciso reforçar o debate sobre como agir para evitar a violência doméstica se o crime ocorre dentro de casa, longe do alcance da polícia e da Justiça? A solução não está na ação policial, mas em ampliar a atenção da sociedade sobre o protagonista da violência: o homem agressor.

O autor do feminicídio chega ao extremo da violência por não saber reconhecer em si as diferenças e a fronteira entre o amor afetuoso e o sentimento possessivo e de ciúme. Frases como “se não ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém” ainda são comuns.

Esse sentimento de posse é reforçado culturalmente quando a sociedade aceita figuras jurídicas ultrapassadas como a “legítima defesa da honra” e até pouco tempo considerava aceitável que o homem “lavasse a honra com sangue”.

Esse trecho de uma música interpretada por Sidney Magal mostra o entendimento que a sociedade tinha do feminicídio até poucas décadas atrás.

“Se te agarro com outro, Te mato
Te mando algumas flores, E depois escapo…
Dizem que eu estou errado, Mas quem fala isto
É quem nunca amou, Posso até ser ciumento
Mas ninguém esquece, Tudo o que passou…

É preciso educar na escola, em casa, nas ruas, para que os jovens cresçam com o conhecimento de que a relação é baseada em amor e afeto, sentimentos capazes de construir um relacionamento sólido, de carinho e confiança.

Quando esse sentimento se transforma em ciúme, necessidade de controle e raiva, o homem precisa saber que a relação não está no caminho certo.

Por mais que pareça um paradoxo, a violência contra a mulher só vai deixar de existir quando a sociedade concentrar suas forças na educação dos homens.

O caminho é longo e até lá, a polícia estará atenta para proteger as vítimas de violência.

Sobre a autora:

Raquel Kobashi Gallinati
Delegada de Polícia - Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo

 

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