Terça-Feira, 24 de Outubro de 2017

Artigos
Sábado, 07 de Outubro de 2017, 08h:16

Nacionalismo e cosmopolitismo

Angelo Segrillo*

Francisco Emolo/Arquivo Jornal da USP

Angelo de Oliveira Segrillo

Um espectro rondou a Revolução Russa desde o começo: o espectro do nacionalismo. A ideologia marxista bolchevique era uma ideologia de classe, mas tinha que lutar para deslocar outra poderosa ideologia do século XIX: a ideia da nação e pátria como a principal lealdade do cidadão.

Os revolucionários estavam otimistas inicialmente. O marxismo prega o internacionalismo proletário e afirma que o nacionalismo é um fenômeno do capitalismo nascente, quando é preciso criar um mercado capitalista nacional unificado em vez da fragmentação feudal. Na época do imperialismo e capitalismo monopolista (a partir do último quartel do século XIX), com suas empresas multinacionais, a globalização já se tornaria mais forte até a revolução socialista decretar o fechamento definitivo dos botecos das nações (tese do fim do estado-nação).

Na realidade, não foi isso que aconteceu. Desde a Revolução Russa até a dissolução da URSS, o nacionalismo rondou os destinos da pátria do socialismo. Diversos povos da União Soviética se rebelaram ao longo do tempo (ucranianos, georgianos, chechenos, etc.). Durante a Segunda Guerra Mundial, Stalin usou mais o grito de guerra de “Pela Pátria!” que “Pelo Socialismo!”. E o final da URSS (desintegração em suas repúblicas nacionais componentes) foi visto por muitos como uma vitória das nações sobre o projeto do internacionalismo soviético.

Trotsky, com sua “teoria da revolução permanente”, e Stalin, com o “socialismo em um só país”: disputa emblemática (Getty Images)

Falando sobre internacionalismo soviético, é preciso chamar a atenção para um detalhe técnico que é pouco conhecido pelos brasileiros: a questão do jus sanguinis comparado com o jus soli. Nos países ocidentais (e no Brasil), que são estados-nação, a nacionalidade de uma pessoa é determinada pelo princípio jurídico do jus soli (“direito do solo”): a nacionalidade é determinada pelo local em que nasce, ou seja, nasceu no Brasil, é brasileiro. Na Rússia (e países eslavos) a nacionalidade é determinada pelo jus sanguinis (“direito do sangue”), ou seja, sua nacionalidade é a nacionalidade de seu pai ou da sua mãe (a escolher) e não tem nada a ver com o local onde nasce. Assim, a Rússia/URSS era um estado multinacional, com mais de cem nacionalidades diferentes. O jus sanguinis eterniza as diferenças nacionais dentro de um mesmo país. Como são nações diferentes, na Revolução Russa tínhamos o estranho fenômeno das relações inter-nacionais dentro de um mesmo país (não apenas fora dele)! Isso complexificou muito o problema da relação entre o nacional e o internacional (inter-nacional), pois tudo era muito misturado tanto internamente como externamente. Por exemplo, na língua russa há duas palavras para designar “russo”: russkii (o russo étnico, filho de pais russos) e rossiyanin (qualquer pessoa nascida na Rússia). Um checheno, por exemplo, é um cidadão russo como qualquer rossiyanin, mas não é russkii. Quando se fala de problemas nacionais na Rússia estamos falando dos problemas de quem é rossiyanin ou de quem é só russkii? Isso não fica claro nem para os próprios russos...

Assim, desde o início, a relação entre nacionalismo e internacionalismo estava imbricada na Revolução Russa por causa desse estranho fenômeno do inter-nacionalismo gerado pelos jus sanguinis.

Por exemplo, uma das primeiras discussões assim que aconteceu a revolução de 1917 é como seria constituído o futuro país socialista. Deveriam seguir a divisão territorial que herdaram, baseada em diferentes territórios para diferentes nacionalidades (como, por exemplo, a Geórgia ser o local onde estão os georgianos)? Alguns, seguindo o exemplo de Rosa Luxemburgo e já pensando no internacionalismo proletário, propunham que exatamente não se seguisse esse modelo; ao contrário, propositalmente separassem os povos, espalhando-os por diferentes divisões geográficas, para combater a possibilidade do nacionalismo. Venceu a primeira alternativa, mais tradicional, mas mais fácil de viabilizar. Como resultado dessa opção, dizem alguns, os fenômenos do nacionalismo foram alimentados na URSS, já que georgianos, armênios, russos, etc., convivendo mais entre si, acabavam por criar identidades distintas.

"O vocábulo 'cosmopolitismo' virou palavrão na URSS na época de Stalin. 'Cosmopolitas' seriam aqueles que viviam deslumbrados com o que ocorria no exterior e denegriam o que acontecia na União Soviética"

 

Após a Revolução de 1917, os bolcheviques se apressaram em criar o Komintern, a Internacional Comunista, que deveria congregar os partidos comunistas pelo mundo inteiro, de modo que juntos pudessem planejar a revolução comunista mundial. Ou seja, a ideia é que a revolução comunista fosse mundial (e não meramente nacional, da Rússia). Entretanto, com o passar do tempo e as dificuldades de se espalhar a revolução pelo resto do mundo, aos poucos foi surgindo o conceito do “socialismo em um só país”, ou seja, a ideia de que seria possível construir o socialismo completo mesmo que apenas dentro da URSS. Os debates entre Trotsky (com sua “teoria da revolução permanente”) e Stalin (com sua “teoria do socialismo em um só país”) foram emblemáticos dessa questão. Com a vitória de Stalin, tivemos outro fenômeno estranho: a Internacional Comunista acusada de ser “nacionalista”, isto é, do Partido Comunista da União Soviética dominar os partidos dos outros países em prol de seus interesses próprios e não do internacionalismo proletário.

Uma das vítimas dessas políticas de Stalin foi o vocábulo “cosmopolitismo”. Virou palavrão na URSS na época do líder georgiano. Segundo essa concepção, “cosmopolitas” eram aqueles que viviam deslumbrados com o que ocorria no exterior e denegriam o que acontecia na União Soviética. Já o termo “internacionalismo” (como em “internacionalismo proletário”) tinha conotações positivas e era “politicamente correto” utilizá-lo.

Interessante imaginar o que Marx pensaria dessa discussão toda após sua morte e o que ele proporia para remediar a irônica situação atual do socialismo no mundo onde, por um lado, a URSS acabou, mas a o país (“nação”?) com a economia mais dinâmica do mundo é um país comunista (a China).

*Angelo Segrillo é historiador da USP, autor do livro Os Russos (Editora Contexto)

Comentários

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

LEIA MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO