Quarta-Feira, 23 de Agosto de 2017

 Descaminhos da esquerda | Caldeirão Político
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Quinta-Feira, 03 de Agosto de 2017, 09h:10

SINÉSIO FERRAZ BUENO

Descaminhos da esquerda

Sinésio Ferraz Bueno*

O presente texto tem como objetivo realizar uma leitura crítica do livro recentemente publicado pelo professor de filosofia da USP, Ruy Fausto, intitulado Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução. Embora a reflexão do autor permaneça restrita a concepções delimitadas pelo aparato conceitual do marxismo, a análise do que ele denomina como “patologias da esquerda” oferece um panorama muito produtivo para uma autoreflexão acerca dos impasses que envolvem o cenário de oposição política na sociedade atual. Para o autor, a necessidade imperativa de reconstrução do projeto político da esquerda demanda, antes de mais nada, uma compreensão sobre o distanciamento das práticas políticas desenvolvidas no último século quando comparadas com o sentido original radical da concepção de esquerda. Sem pretender resgatar qualquer tipo de pureza original, ele aponta três tipos de patologia que comprometeram os próprios alicerces da oposição política realizada por socialismos e comunismos. 

Patologias da esquerda
A primeira delas, “neototalitarismo”, engloba as principais experiências da esquerda no último século, como o stalinismo, a Revolução Chinesa e as execuções sumárias empreendidas por Pol Pot no Camboja, que apresentaram em comum um retrospecto de regressão à barbárie antagônico aos objetivos historicamente originários da esquerda: liberdade, solidariedade e justiça social. A segunda patologia, bem menos trágica no que se refere à eliminação sumária de vidas humanas, consiste nas tendências adesistas e reformistas dos partidos de esquerda a projetos de cunho social-democrata. A terceira patologia é traduzida pelo autor sob a forma das fortes tendências populistas personificadas por diversas lideranças carismáticas autoritárias muito comuns em governos de esquerda. Ao analisar esse terceiro aspecto, o autor dedica-se menos ao populismo em si que ao apontamento de seus subprodutos indesejáveis, vale dizer, os pecados capitais cometidos pelos últimos governos petistas: práticas escancaradas de corrupção, a morte não esclarecida de Celso Daniel, e uma renitente resistência à autocrítica. 

Na análise das três patologias aqui brevemente resumidas, Ruy Fausto sintetiza muito apropriadamente o núcleo aglutinador dos vícios do pensamento e da prática de esquerda alertando para seu teor religioso e dogmático. Trata-se da modalidade de engajamento político que é perpassada por tendências totalitárias que acorrentam o pensamento e a prática de esquerda a diversos tipos de irracionalismo, suscitando, por isso, um debate fundamental acerca do ativismo político, notadamente aquele praticado no interior de muitas universidades públicas. Nesse ponto, a crítica de Ruy Fausto aproxima-se de um tema cuja reflexão é urgente e essencial para que os descaminhos e irracionalismos do engajamento de esquerda sejam compreendidos à altura das possibilidades conceituais disponíveis no atual momento histórico. Para além das patologias e da mentalidade dogmática e religiosa analisadas por Ruy Fausto, é possível situar e compreender a presença subterrânea de afinidades do pensamento e da prática de esquerda com a atmosfera ressentida e agressiva do fascismo. 

Afinidades entre o fanatismo comunista e o fanatismo religioso
Para compreender os aspectos comuns entre o fundamentalismo religioso e o fanatismo de esquerda, aos quais é subjacente a atmosfera fascista, é necessário levar em conta as reflexões de Freud sobre a psicologia grupal, condensadas no conceito de “narcisismo das pequenas diferenças” (livro O mal-estar na civilização, parte V). Freud estabelece como ponto comum entre grupos religiosos e partidos de esquerda, referindo-se especificamente ao projeto comunista então empreendido na Rússia, a existência do inimigo a ser combatido (o infiel ou herege, para os religiosos; a figura do burguês, para os comunistas). A existência do mal é o verdadeiro fator de união grupal, pois proporciona a possibilidade de canalização das pulsões agressivas para fora do grupo de irmãos de igreja ou de camaradas do partido, permitindo sua coesão e solidariedade. Segundo Freud, é possível unir grupos fraternos em torno do amor, desde que existam outros grupos externos para os quais possa ser revertida toda a agressividade reprimida dos companheiros de religião ou de partido político. 

Ao explicar em termos essencialmente psicológicos e emocionais as raízes da hostilidade grupal de viés religioso e político, Freud apresentou um duplo mérito no campo da filosofia política. Em primeiro lugar, trata-se de uma explicação que reduz os laços de amor e solidariedade, bem como os ideais messiânicos de redenção no interior dos grupos de religiosos ou de militantes de esquerda em que prolifera a mentalidade fanática, a um papel secundário de racionalização e justificação da violência dirigida ao out-group, uma vez que a verdadeira matéria-prima que proporciona a união grupal são as pulsões de morte dirigidas aos inimigos. Em segundo lugar, porque, em sua análise, Freud antecipou os principais elementos da atmosfera fascista que autorizam a canalização da agressividade sobre grupos minoritários que podem ser religiosos infiéis, burgueses reacionários, imigrantes, etnias, homossexuais, etc. 

Desde que se considere que a reflexão sobre a política não necessita circunscrever-se exclusivamente ao aparato conceitual do materialismo dialético, o pensamento de Freud aponta horizontes de análise para os quais a simples dualidade entre direita e esquerda torna-se precária e insuficiente. Embora não se possa discordar do argumento básico exposto por Ruy Fausto de que o pensamento de esquerda tenha originalmente se comprometido com ideais de liberdade, emancipação e autonomia, sempre que a realização de tais horizontes é buscada sob condições de rígida oposição, fanatismo e estereotipia grupal, a prática política estabelece sombrias afinidades com o fascismo. Em outras palavras, as três patologias analisadas pelo autor encobrem outra patologia mais grave, intrínseca ao pensamento e à prática política da esquerda radical, que pode ser definida como uma afinidade estrutural com a mesma atmosfera fascista que pretende combater. 

A análise de Ruy Fausto diferencia-se das reflexões mais comuns no campo da ciência política pela distinção lúcida entre simpatizantes e pessoas declaradamente de esquerda dos que compartilham os traços comportamentais peculiares ao engajamento fanático. É importante ressaltar que estes se diferenciam daqueles pela notável quantidade de energia e de investimento narcísico dedicados ao ativismo político. Em casos extremos, que são peculiares aos ativistas radicais, os ideais de emancipação próprios ao campo da esquerda são simplesmente traídos e abandonados, de suas ruínas emergindo sintomas claros de catarse grupal, manifestados sob a forma de discurso agressivo e comportamento autoritário.  Dessa maneira, como os ideais originalmente libertários facilmente podem converter-se em seu contrário, é somente sob a perspectiva emocional e cognitiva do indivíduo em particular, e não sob a ótica grupal, que se pode discriminar a presença de autênticos impulsos de resistência e de luta pela liberdade do simples fanatismo ressentido. Pois somente no plano da consciência de cada indivíduo singular é possível refletir sobre a contradição entre o amor abstrato pela humanidade e sua correlata frieza e indiferença frente ao humano imediatamente próximo e semelhante. 

Ruy Fausto reconhece que embora a heteronomia e o fascismo em sua origem histórica tenham sido parte do campo ideológico da direita, a esquerda, em seus combates sustentados pela mobilização das massas, frequentemente reproduz análogos padrões ideológicos e comportamentais aos da direita, anulando a autonomia individual que deveria ser parte indissociável dos horizontes de liberdade que inicialmente justificaram a oposição. Em seu livro, o autor propõe novos horizontes para a renovação do pensamento e da prática de esquerda, porém mantendo-se restrito a categorias habituais do marxismo, como o conceito de hegemonia adotado por Gramsci. Tal procedimento torna impossível se desvincular dos pressupostos instrumentais de esclarecimento da consciência das massas por lideranças intelectuais, os quais são perfeitamente compatíveis com o estado de heteronomia individual na sociedade de massas. Uma reconstrução autêntica do pensamento de esquerda requer, portanto, o reconhecimento primordial de que sempre que a identidade grupal prevalece sobre a autonomia do indivíduo, o fascismo torna-se a principal patologia da esquerda. 

Contradições dialéticas da esquerda
Não se deve negligenciar que o pensamento e a prática de esquerda tenham uma especificidade política que não pode ser inteiramente reduzida ao campo da psicologia. Por outro lado, em nome de uma desejável isenção intelectual, igualmente não se pode ignorar que o ativismo de esquerda, frequentemente animado pela agressividade grupal e pelo messianismo e dogmatismo religioso, envolve-se em uma sucessão de contradições que articulam discurso libertário e prática autoritária. Dessa forma, ao considerarmos as homologias estruturais entre o pensamento e o comportamento de fanáticos religiosos e militantes radicais de esquerda com a atmosfera agressiva e segregadora do fascismo, não restarão motivos para que a reflexão filosófica no campo da política permaneça restrita à pura aceitação de uma dicotomia simplista entre direita e esquerda. Além das referências freudianas aqui brevemente sugeridas, outros campos conceituais serão muito produtivos para processos autoreflexivos acerca da atual conjuntura política. Nesse sentido, é altamente relevante a noção de personalidade autoritária (Escola de Frankfurt – Adorno e Horkheimer), a filosofia da diferença (Deleuze), a microfísica do poder (Foucault) e a banalidade do mal (Arendt) como horizontes conceituais que permitem compreender o universo político para além de um míope antagonismo rígido, estereotipado e mecanicista entre direita e esquerda.

* Sinésio Ferraz Bueno, professor do Departamento de Filosofia da Unesp.

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